Santa Catarina,
Home A Entidade Ações Diretoria Os Diários Coluna Pelo Estado Contato
Destaque
 
“As próximas gerações terão que criar seus próprios empregos
Entrevista com novo diretor-superintendente do Sebrae-SC, Carlos Henrique Ramos Fonseca

Ele nasceu em Florianópolis, tem graduação em Engenharia Elétrica e pós-graduação em Engenharia Econômica, com cursos de especialização no Brasil e exterior. Teve passagens pela Celesc e pela Eletrosul, foi Superintendente da Previsc e do SESI Nacional, e membro dos Conselhos da Fapesc, da Previsc e do próprio Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-SC), pelo qual agora responde como diretor-superintendente. Antes disso, atuava como diretor de Desenvolvimento Institucional e Industrial da Federação das Indústrias (Fiesc) e como superintendente do Instituto Euvaldo Lodi (IEL-SC). Nessa entrevista exclusiva concedida à Coluna Pelo Estado, Carlos Henrique Ramos Fonseca fala um pouco dos planos que tem para o Sebrae catarinense, já considerado um dos melhores do país. O objetivo mais imediato de Carlos Henrique é digitalizar o Sebrae, suas nove coordenadorias regionais e as agências de atendimento presentes em 17 municípios. “Precisamos oferecer mais agilidade nesse momento de transição de modelos.”

 

[PeloEstado] - Em sua posse (quinta-feira, 10) o senhor falou que o Sebrae-SC deve passar por um processo de digitalização. Acredita que há descompasso entre o serviço e o setor produtivo?

Carlos Henrique - O Sebrae catarinense vem atendendo bem, tanto é que o trabalho feito pela diretoria anterior é reconhecido nacionalmente. Mas o ambiente de negócios está se transformando, a velocidade de mudança do mercado tem sido muito grande.  Hoje, o maior desafio das empresas é se manterem atualizadas nesse mundo em transformação, que atinge as instituições de apoio como o Sebrae. Nós precisamos nos transformar também e o meio digital oferece a velocidade que o empresário precisa para tomar decisões. Precisamos nos adaptar para oferecer mais agilidade no apoio às empresas nesse momento de transição de modelos. E também ganha escalabilidade (característica desejável em todo o sistema, rede ou processo, que indica a capacidade de manipular uma porção crescente de trabalho de forma uniforme, ou estar preparado para crescer), com o que se pode atender muito mais gente, com o mesmo custo, com mais capacidade e com mais celeridade. Hoje, com informação, já está difícil, sem informação, os micros e os pequenos empresários ficam fora do jogo.

 

[PE] - Quais são suas metas para os quatro anos de gestão?

Carlos Henrique - Por isso que eu falei, nós temos que ajudar muito os pequenos e micro empresários, e os individuais, no acesso à informação, na formação, na qualificação através de instrumentos digitais para se ter mais celeridade. O próprio empresário, hoje, tem menos tempo. E precisa de instrumentos mais ágeis para estar se informando e se formando.

 

[PE] - Quais os rumos do empreendedorismo, diante de tantas transformações?

Carlos Henrique - Com as mudanças dos processos produtivos, com a tecnologia sendo inserida, o emprego formal está diminuindo e diminuirá drasticamente nos próximos anos. O microempreendedorismo individual passa a ser o caminho para a entrada no mercado de trabalho das novas gerações. Eles terão que criar seu próprio emprego. Por isso há necessidade de suporte para qualificação desses novos empreendedores, com educação empreendedora e com a massificação da cultura empreendedora. Como propus (no discurso de posse), isso tem que vir desde o ensino fundamental, depois no ensino médio. Temos que formar os jovens da próxima década, empreendedores que vão vender suas competências, que vão ser contratados pelo que sabem. Formar os futuros empreendedores e ajudar na qualificação dos empresários atuais é essencial para reduzir o índice de mortalidade das empresas de micro e pequeno portes, que ainda é alto. Precisamos enfrentar o grande desafio que temos, que é elevar a competitividade por meio do aumento da produtividade. 

 

[PE] - O que passa pela inovação.

Carlos Henrique - A inovação deve ser um processo constante e contínuo. Temos uma responsabilidade muito forte de apoio às micro e pequenas empresas para que invistam sempre em inovação e possam sobreviver às transformações do ambiente de negócios. Outro ponto que está no foco da nossa gestão é a internacionalização. É preciso ser mais competitivo no mercado nacional para ter melhores condições de competir no mercado internacional.

 

[PE] - E tem espaço para isso?

Carlos Henrique - Muito! As micros e pequenas empresas participam com apenas 2,4% das exportações de Santa Catarina. Mesmo sendo tão pouco, esse índice ainda é o dobro do índice nacional, limitado a 1,2%. Temos uma oportunidade muito grande de alavancar a participação do segmento no comércio exterior. Quando a empresa trabalha em um ambiente mais exigente e competitivo, passa a ser mais produtiva e competitiva também internamente.

 

[PE] - O Sebrae-SC dá conta de uma tarefa tão grande, ainda mais considerando o caráter empreendedor e exportador do estado?

Carlos Henrique - Só podemos fazer isso com parcerias. Fortalecendo o que chamamos de tríplice hélice - governo, academia e setor produtivo. Temos que estar próximos das entidades empresarias. Até porque o cliente é o mesmo: 98,5% dos clientes da Federação das Indústrias (Fiesc), são clientes do Sebrae; 99% dos clientes da Fecomércio-SC são clientes do Sebrae. Isso porque 98% dos empresários catarinenses são micro e pequenos. Nós temos clientes em comum e podemos trabalhar junto com as co-irmãs para maior eficiência e eficácia.

 

[PE] - Como promover isso?

Carlos Henrique - Todo namoro conhece com conhecimento. Precisamos aproximar cada vez mais as nossas equipes técnicas, conhecer o que cada entidade já faz, seja em indústria, comércio, serviço ou agricultura. A partir daí vamos ver a sinergia dos nossos portfólios de produtos. Não preciso pensar em concorrência, mas em complementariedade, em soluções em conjunto para as necessidades dos clientes comuns. As demandas são muito maiores que as capacidades individuais de atendimento. Então nós temos que unir forças para fazer do cliente o vitorioso.

 

[PE] - O novo governo anunciou corte de verbas para o Sistema S, o que atinge o Sebrae. Preocupa?

Carlos Henrique - Qualquer corte nos patamares anunciados, de 30% a 50%, certamente vai afetar os serviços do Sistema S. O que está faltando é diálogo, conhecimento do serviço que prestamos à sociedade. Mas é óbvio que vamos ter que fazer ajustes internos para não sermos pegos por qualquer tipo de surpresa. Cada vez mais temos que procurar a racionalidade, fazer mais com menos, mas jamais comprometendo a qualidade dos serviços que prestamos. A necessidade de parcerias também passa por aí, pela racionalização do uso de recursos e a otimização das atividades meio. Internamente, nós estamos revisando o orçamento de 2019 para reduzir custos onde for possível. É um fato, tudo está se modernizando e o Sistema S precisa mudar também. Esse tipo de ameaça externa leva à procura de maior eficiência e eficácia. O fato é que os próximos anos não serão iguais aos passados!

 

[PE] - Mesmo tendo tomado posse só agora, o senhor tem bastante domínio dos assuntos do Sebrae catarinense. É resultado dos poucos dias que teve para a transição?

Carlos Henrique - Como estava na Fiesc, eu era membro do Conselho do Sebrae e tenho acompanhado a atuação do serviço ao longo dos últimos três, quatro anos. E o meu trabalho na própria Fiesc também ajudou. Fui responsável pela implantação do Programa de Desenvolvimento da Indústria Catarinense (PDIC 20/22), pelo qual fizemos um grande planejamento estratégico para a indústria, de forma participativa, com presença em todas as regiões do estado. Isso me propiciou conhecer a realidade da demanda do setor produtivo, o que facilita o entendimento sobre o próprio Sebrae. O trabalho do PDIC 20/22 resultou no Observatório da Indústria, um grande banco de dados de onde tiramos inteligência para disponibilizar aos nossos clientes.

 

[PE] - Ainda é muito forte, em Santa Catarina, a litoralização. Como o senhor pretende dirigir o Sebrae no sentido do interior?

Carlos Henrique - Nosso papel é fazer o Sebrae presente em todos os municípios do estado. O desenvolvimento econômico e territorial passa pelo empreendedorismo. E nós temos consciência disso. Por isso existe o projeto Cidade Empreendedora que nós vamos potencializar. Hoje está em poucos mais de 30 cidades e queremos levar às 295, porque potencializa o desenvolvimento econômico e social da região. Pelo projeto nós ajudamos no planejamento do município, transformado em nascedouro de novas empresas. A parceria com as prefeituras ajuda na formação da cultura empreendedora, com atividades já no ensino fundamental. E temos o compromisso de ajudar no crescimento do ecossistema de inovação catarinense, que já é o que mais cresce no país. Queremos ajudar o governo estadual no empreendedorismo para desenvolver os 13 centros de inovação que estão sendo instalados nas diferentes regiões do estado. Junto com as universidades, queremos aumentar a geração de riqueza no interior, a permanência do conhecimento no interior, potencializar as nossas universidades com o Sebrae Lab, um espaço de pré-startups que queremos multiplicar por Santa Catarina. A própria digitalização do Sebrae vai ser feita pelas micro e pequenas empresas e startups.

 

Por Andréa Leonora

redacao@peloestado.com.br